Engenheiro Florestal formado em 1964 na primeira turma do curso no Brasil
A Central Florestal vem realizando desde 2013 algumas entrevistas exclusivas com personalidades que marcaram história na construção da engenharia florestal no país, tais como entrevista com Drº José Sales Mariano da Rocha (Turma 1964), Drº Sebastião do Amaral Machado (Turma 1964), além de referências em áreas específicas, tais como Nelson Barbosa Leite, um dos maiores silvicultores do país e, Drº Flávio Pereira, o responsável pela introdução da Acacia mangium no Brasil e o eng. florestal Glauber Pinheiro, à época presidente da Sociedade Brasileira dos Engenheiros Florestais (SBEF). Todas as entrevistas podem ser acessadas no link entrevistas.
E é com muita satisfação, que entrevistamos hoje o engenheiro florestal aposentado Otto Ernesto Willi Schmidt, graduado na primeira turma de engenharia florestal do país (UFPR, ano 1964), atualmente vive em Jacareí, São Paulo e nos concedeu a oportunidade de conversar um pouco sobre a história e trajetória da profissão no país. A entrevista é realizada por Luciano França, eng. florestal e idealizador da Central Florestal.

Central Florestal Otto, é para nós uma grande honra poder entrevista-lo aqui na Central Florestal! Nossa primeira pergunta é sobre o que realmente motivou-lhe na época a escolher o curso de engenharia florestal? E como se deu ali o processo seletivo e posteriormente a relação entres os primeiros estudantes de engenharia florestal do país?

Otto Schmidt Em fevereiro/1960 prestei vestibular para Agronomia na Universidade Rural do Estado de Minas Gerais (UREMG – atualmente UF Viçosa), visando especializar-me em Zootencia, especificamente equinocultura; não fui aprovado. Voltei para São Paulo e resolvi que voltaria a Viçosa em agosto para frequentar um cursinho pré-vestibular, e prestar novo concurso em 1961. Tomei conhecimento da criação da Escola Nacional de Florestas (ENF) em maio e que haveria um exame vestibular; fui para Viçosa, e fui aprovado com mais 25 outros candidatos (fizemos um movimento vitorioso para a admissão do único candidato excedente). O relacionamento entre nós, primeiros estudantes de Engenharia Florestal no país, deu-se naturalmente em um curto espaço de tempo; as origens eram as mais diversas regiões e escolhas de profissões. Na realidade, todos pretendiam prestar novo concurso vestibular para Agronomia no ano seguinte. Além de estar previsto que os dois primeiros anos de estudos seriam iguais aos do curso de Agronomia, havia ainda uma aula diferenciada: Introdução à Engenharia Florestal, ministrada pelo professor austríaco Alfred Kotschwar, o que seduziu e conquistou a grande maioria dos estudantes; poucos desistiram do curso.

Central Florestal – Esta pergunta na verdade gera sempre muitas dúvidas nos leitores e comunidade em geral. Quais foram os reais motivos da transferência da eng. florestal de Viçosa para a escola de Curitiba? Sob o seu olhar, de quem vivenciou na prática o processo da transferência do curso.

Otto Schmidt O processo de criação da ENF resultou de um convênio celebrado entre o Governo Brasileiro (através do Ministério da Agricultura e Serviço Florestal Federal) e a FAO (Organização de Agricultura e Alimentos da ONU), que contribuiria com equipamentos, máquinas, laboratórios, professores e técnicos, principalmente professores de matérias específicas, a serem substituidos posteriormente por profissionais formados no país. Caberia ao Governo Brasileiro prover a ENF de um campus estruturado, com instalações adequadas ao ensino, salas de aula, laboratórios, administração, bem como terreno suficiente  para instalação de viveiros florestais e práticas de campo. A UREMG foi escolhida para inicialmente abrigar a ENF em seu campus, em comum acordo com o Governo do Estado de Minas Gerais; e que para a instalação da nova Escola, parte das terras da UREMG seria transferida para o Governo Federal.   
            Os dois primeiros anos do curso da ENF foram comuns ao programa da Escola de Agronomia. Também foi construído um pequeno prédio de madeira com salas de aula e administração. No final desse período vieram os primeiros professores de matérias próprias da engenharia florestal; chegaram caixas de equipamentos e aparelhos enviados pela FAO.  Nossos novos professores demonstravam preocupação por saberem que não havia boa vontade da administração da UREMG, muito menos do Governo de Minas Gerais e falta de empenho do Governo Federal, de cumprir o compromisso junto à FAO, que estava fazendo a sua parte. Os estudantes, já organizados no Diretório Acadêmico, iniciaram um movimento para a agilização dos procedimentos para que nossa ENF fosse instalada em seu campus prometido; as autoridades a que acorríamos faziam ouvidos de mercador, o que irritava tanto os estudantes como os professores estrangeiros.
            Em inúmeras conversas que tive com o Prof. Gerhart Speidel, Diretor por parte da FAO, fiquei sabendo que havia interesses políticos para que nossa ENF permanecesse em Viçosa, porém sem receber a contrapartida acordada com a ONU. Em 1962 o Governo Federal resolveu agir e estudou a possibilidade de transferir a ENF para Brasília, reservando uma gleba de terras para sua instalação. Todos foram contra, os políticos mineiros (inclusive o Governador Magalhães Pinto), nós estudantes e até nossos professores estrangeiros, pois no Brasil Central não havia qualquer empreendimento florestal; a iniciativa foi abandonada. E tudo continuou no mesmo para nossa ENF.
            Em meados de 1963 fiquei sabendo que o Governador de São Paulo, Adhemar de Barros, recebeu em audiência uma comissão formada pelo Dr. Oedekoven, Diretor da FAO, nosso Diretor Prof. Speidel e outras autoridades, oferecendo o antigo Horto Florestal de Rio Claro para instalar a ENF; foi lá que Edmundo Navarro de Andrade implantou os primeiros talhões experimentais de Eucalyptus para o fornecimento de lenha para as locomotivas da Companhia Paulista de Estradas de Ferro; abriga um belo museu florestal, árvores centenárias e a área é imensa. Eu conhecia o Horto, pois estudei 4 anos no Ginásio Koelle, educandário de grande reputação. Quando a notícia chegou em Viçosa, eu fiz uma reunião com meus colegas e expliquei detalhadamente como era o Horto; a grande maioria dos estudantes aprovou a ideia e fizemos um movimento de apoio à iniciativa. Porém, novamente a oposição dos políticos interesseiros conseguiu torpedear a iniciativa e tudo voltou à estaca zero. Hoje o Horto é ocupado pela UNESP.
            Passado pouco tempo e próximo ao final do segundo semestre de 1963, veio a notícia de que o Governo Brasileiro, em comum acordo com a FAO e a Universidade Federal do Paraná, transferiu a ENF para Curitiba. A UFPR disponibilizou um prédio para salas de aulas e a Faculdade de Agronomia cedeu espaço para instalação de laboratórios; o Diretório Acadêmico da Engenharia franqueou sua cantina aos estudantes. E assim, no início de 1964 estávamos caminhando para a diplomação dos primeiros engenheiros florestais do Brasil. Cumpre mencionar que vários colegas da minha e de outras turmas não quiseram ir para Curitiba e se transferiram para uma nova Escola de Engenharia Florestal em Viçosa.
            Finalmente, um pequeno reparo na elaboração desta pergunta: não houve “transferência da eng. florestal de Viçosa para a escola de Curitiba”, mas transferência da Escola Nacional de Florestas para Curitiba, visto que naquela época a UFPR não dispunha de Escola de Engenharia Florestal.

Central Florestal – Estimado Otto, o sr. foi o primeiro presidente do Diretório Acadêmico Bernardo Sayão (DABS), quais as novidades e conquistas como movimento estudantil foi possível obter na época?

Otto Schmidt – Como primeiros estudantes de engenharia florestal no Brasil, inicialmente não tínhamos nem uma associação ou Diretório Acadêmico; no entanto, tivemos convite e receptividade por parte dos nossos colegas da Agronomia, através de seu Diretório Acadêmico Artur Bernardes (DAAB), que nos orientaram sobre os usos e costumes na UREMG. Recebemos instruções sobre como fundar nosso Diretório Acadêmico. Como naquela época, início dos anos 60, a política nacional estava em um estágio de ebulição, várias tendências políticas disputavam o poder governamental; o movimento estudantil brasileiro estava na época bastante engajado em várias tendências; mas nossa primeira turma não teve nenhum elemento que participasse do movimento.

Central Florestal – Como eram as primeiras aulas e, seus primeiros professores de graduação? E quais foram as maiores dificuldades daquela primeira turma de engenharia florestal do país?

Otto Schmidt Os dois primeiros anos de graduação foram comuns ao curso de Agronomia, pois as matérias eram coincidentes, exceto a aula ministrada pelo Prof. Kotschwar, citado na resposta da primeira pergunta. A partir do terceiro ano as matérias eram sobre assuntos específicos da profissão; tivemos professores tanto brasileiros como vindos de outros países, estes especializados em matérias próprias da engenharia florestal, aqueles em matérias comuns com a Agronomia.
            A dificuldade maior de minha turma foi conseguir informações sobre as atividades que iríamos desenvolver como profissionais; não havia no país profissionais que poderiam nos informar quais seriam nossas opções de atuação; já existia uma tradição de reflorestamento com Pinus e Eucalyptus por iniciativas de indústrias de produção de papel, alguns órgãos públicos se dedicavam a administrar parques e hortos florestais, a pesquisa florestal estava engatinhando. Desconhecíamos o mercado de trabalho; não havia programa de estágio durante as férias escolares, cada um procurava contatos em empresas e órgãos públicos; alguns tiveram sucessos, a maioria não. Outro problema era a dificuldade de comunicação entre os estudantes e os professores estrangeiros, pois quase todos não dominavam a língua portuguesa; tivemos alguns poucos tradutores; eu mesmo fui tradutor em diversas aulas dadas em inglês, e para professores que muitas vezes se expressavam em alemão (não foi o caso do Prof. Speidel, que tinha um bom conhecimento do nosso idioma.).

Central Florestal Após sua formação em 1964, com o que o sr. foi trabalhar e, como caracteriza sua trajetória profissional como engenheiro florestal?

Otto Schmidt Eu e mais quatro colegas de turma fomos trabalhar no Grupo Interdepartamental de Povoamento do Maranhão (GIPM), órgão da SUDENE. Nossa base era o povoado Centro do Zé Doca, hoje município maranhense; instalamos um campo experimental florestal e reserva ecológica onde foram feitos diversos estudos e inventários florestais e viveiro. Paralelamente participamos de outras atividades voltadas para os projetos de colonização agrícola (núcleos), como abertura de estradas, serviços topográficos, edificações, pista de pouso, transportes. Saí em fevereiro de 1968.
            A partir de maio/1968 e até dezembro/2012 trabalhei em três empresas de reflorestamento voltadas para investimentos em benefícios de incentivos fiscais (Lei 5106/660, através de projetos aprovados pelo IBAMA (antes Instituto Brasileiro de Desenvolvimento - IBDF) e os respectivos plantios e manutenções. No estado de São Paulo atuei principalmente no Vale do Ribeira, com plantios de Pinus elliotii, P. taeda e Eucalyptus; fui pioneiro em plantios de enriquecimento da mata nativa com o palmiteiro juçara (Euterpe edulis). Trabalhei também em plantios de Pinus patula em Campos do Jordão.  Ainda, elaborei e aprovei junto ao IBAMA diversos planos de corte de Eucalyptus; em Iguape fui perito judicial em processos de derrubadas ilegais da mata nativa. Em Sorocaba fui assistente técnico em um processo de roubo de uma plantaçào de Eucalyptus em idade de corte e apresentei um relatório da estimativa do volume da madeira subtraída.
Em Goiás trabalhei em São João da Aliança (Chapada dos Veadeiros) no plantio de 500 hectares de mangueiras. Em Dianópolis (hoje Tocantins) e Água Clara (MS),  Eucalytus. Em Oeiras do Pará, cupu-açu (Theobroma grandiflorum) e bacuri (Platonia insignis).
            Considero que minha trajetória profissional foi dinâmica e diversificada, exigindo muitas vezes estudos mais detalhados sobre iniciativas e decisões a serem tomadas e eu conhecia poucos profissionais que pudessem prestar algum auxílio técnico; é o preço do pioneirismo.
           
Central Florestal – Existem hoje 71 cursos de graduação em engenharia florestal distribuídos em 60 instituições de ensino superior. Como o senhor vê essa rápida expansão do número de cursos no país e, se acha que o mercado conseguirá absorver tantos graduados?

Otto Schmidt A expansão dos cursos de graduação pode ser analisada sob três aspectos: modismo, efeito demonstração ou uma real necessidade de mais cursos; o importante é que os cursos ofereçam uma ótima qualidade de ensino e que haja uma expansão de vagas no mercado de trabalho, do qual não tenho informações a respeito.

Central Florestal – O que mudou na engenharia florestal do Brasil, de 1965, quando comparada a dos dias atuais? Nos aspectos da formação acadêmica e da profissão.

Otto Schmidt Para os primeiros engenheiros florestais formados em 1964 e seguintes não havia muitas alternativas de escolha sobre qual ramo se dedicar, pois esta nova profissão ainda não era conhecida. Alguns profissionais conseguiram colocação em empresas privadas, principalmente as que tinham atividade de reflorestamento (será que engenheiro florestal só poderia trabalhar em reflorestamento?); outros tiveram oportunidades de permanecer nas Universidades e se prepararam para o magistério. Com o passar do tempo o mercado de trabalho foi se expandindo e atualmente o leque de opções na profissão é bastante amplo e diversificado, tanto na iniciativa privada como em muitos órgãos públicos e no magistério.

Central Florestal – No que o sr. acha que a engenharia florestal ainda deve reinventar-se? No sentido de se repensar como profissão, no mundo?

Otto Schmidt Não tenho informações suficientes a respeito, visto que passei a maior parte do meu tempo de profissional em propriedades rurais, além de contatos com o IBAMA nos Estados e em Brasília.

Central Florestal – Para finalizarmos a entrevista, caro Otto, qual recado o sr. deixa para os atuais estudantes e atuais profissionais da engenharia florestal?
Otto Schmidt Amar e honrar a profissão com diligência e perseverança; enfrentar as dificuldades profissionais com serenidade e sabedoria; diante de dificuldades técnicas, ter a humildade de recorrer aos colegas bem como auxiliá-los quando solicitado. Ninguém é sabe-tudo nem todo-poderoso.

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1 Comentários

  1. "Otto Ernesto Willi Schmidt foi o primeiro engenheiro florestal que conheci.[...] Em nossa primeira conversa ele já me disse que eu deveria pensar em fazer Engenharia Florestal, dado que o meu pai havia se inserido na Silvicultura". Foi o Willi um dos mentores da minha escolha profissional {Testemunho registrado em meu livro 'Histórias para distrair e estimular florestais e afins'. p.81}. Depois de 1970 perdi o contato com o Willi. Decorrido meio século daquela nossa primeira conversa, andava a sua procura com o propósito de enviar-lhe um presente. Por sorte encontrei a filha dele Cristina Schmidt, através do Linkedin e pude então encaminhar-lhe o livro. Dias depois, recebi um telefonema do próprio Willi. Foi muito emocionante a nossa conversa. Também emocionante foi ler esta entrevista dele. Moramos relativamente próximos e combinamos um encontro para 2019. Conhecê-lo ainda jovem, foi decisivo na escolha profissional, e, por consequência, na minha trajetória humana. Willi, vamos nos encontrar sim, este ano. Tomando, claro, devidas precauções cardíacas na véspera, porque a emoção será incomensurável!

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