ENTREVISTA
Por: Luciano C. J. França | Editorial Central Florestal, 12 de julho de 2020

Respeitado no setor florestal, professor e pesquisador atuante no Paraná, o engenheiro florestal Sylvio Péllico Netto, com graduação na primeira turma de engenharia florestal do Brasil, revela histórias inéditas sobre sua gênese na carreira, criação e evolução do curso no país, alentos e perspectivas para a engenharia florestal dos próximos tempos


12 de julho é globalmente a data escolhida em comemoração ao dia do engenheiro florestal e, coincide com o falecimento do monge beneditino São João Gualberto, que morreu em 12 de julho de 1073.  São João Gualberto dedicou sua vida ao cultivo de bosques florestais durante o século X (Bosques de Vallombrosa, Florença, Itália) e, por isso, foi consagrado na tradição católica pelo Papa Pio XII como o “Protetor dos Florestais”. São João Gualberto deixou aquela que se pode considerar como primeira ciência, mesmo que empírica, sobre o aproveitamento sustentável da floresta, sua proteção e preservação, sendo considerado por historiadores como um dos percussores dos estudos em ciências florestais no mundo. São João Gualberto não só se dedicou a vida religiosa, mas também se dedicava no ensino de práticas em agricultura e silvicultura para os seus monges.

Dentre vários pioneiros em estudos científicos das florestas no mundo, com destaque aos europeus Hans Carl von Carlowitz, Johann Heinrich Cotta, Gottlob König, Adolfo di Berenger, dentre outros, deixaram suas marcas na história como importantes protagonistas no desenvolvimento da ciência florestal.

No Brasil, muitos nomes também protagonizaram importantes diálogos em torno da ciência florestal e defesa do ensino florestal no país, nomes já mencionados em outras entrevistas aqui realizadas e, também serão contemplados de maneira justa em futuras matérias especiais.

Encontramos com professor Sylvio Péllico Netto, um dos personagens históricos mais marcantes no contexto no início do primeiro curso e turma de engenharia florestal no país e com significativa contribuição no desenvolvimento da ciência florestal no Brasil. Criador dos Cursos de Mestrado e Doutorado em Engenharia Florestal da UFPR, o engenheiro se mantem ativo no ensino e pesquisa florestal.

O Professor Sylvio Péllico faz parte do respeitável grupo de profissionais que deram ascendência a engenharia florestal no país. Dedicou-se de corpo e alma ao ensino, pesquisa e à formação de profissionais. Atuou desde o início da sua carreia de maneira efetiva em inovações e reivindicações para o fortalecimento do ensino, pesquisa, extensão e desenvolvimento do setor florestal.

Entrega do Prêmio Paranaense de Ciência e Tecnologia para Sylvio Péllico Netto, presidente do Instituto de Tecnologia do Paraná - Tecpar (Ano 1989). Fonte: Reprodução - Tecpar.


Muitos o reconhecem como “o pai do inventário florestal no Brasil”. Reconhecimento justo dado o seu exemplo de dedicação e empenho na luta em defesa e reconhecimento profissional dos engenheiros florestais no país. Atuou intensamente em universidades, instituições de ensino e pesquisa em nível nacional e internacional e, atualmente é Professor Sênior da Universidade Federal do Paraná.

Sylvio Péllico Netto é um dos primeiros engenheiros florestais do Brasil, formado em 1965 na primeira turma do curso no país, pela Universidade Federal do Paraná, em Curitiba. Com mestrado em Manejo Florestal pela New York University (1968) e doutor em Biometria e Inventário Florestal pela instituição alemã Albert-Ludwigs-Universität Freiburg (1979). Péllico Netto foi professor titular da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e atualmente é professor sênior da Universidade Federal do Paraná, onde orienta estudantes de mestrado e doutorado em engenharia florestal. O professor estuda temas relacionados a Dedrometria e Inventário Florestal. Autor de centenas de artigos, livros e trabalhos científicos publicados no Brasil e no estrangeiro, Sylvio coleciona em seu currículo dezenas de premiações e homenagens pelos serviços prestados à sociedade.

Central Florestal Primeiro nosso muito obrigado por nos conceder essa entrevista, Professor Sylvio. Na sua concepção como figura histórica da profissão, tecnicamente e sociologicamente, o que mudou na engenharia florestal brasileira dos anos 60 para a atual engenharia florestal?

Dr. Péllico Netto – Primeiramente eu gostaria de agradecer esta oportunidade para falar de nossa profissão. Como é do conhecimento de todos, a engenharia florestal teve seu início no dia 30 de maio de 1960, na então Universidade Rural do Estado de Minas Gerais, em Viçosa. Nos primórdios deste processo ocorreram fatos de cunho político que marcaram nossa profissão, pois a engenharia florestal no Brasil foi proposta a partir de uma série de fatos notáveis que foram discutidos por personalidades nos âmbitos do então Serviço Florestal Brasileiro - Ministério da Agricultura e da FAO, de quem, por meio de uma comissão de alto nível, surgiu o projeto para sua criação. Naturalmente, devido estes órgãos à época estarem funcionando no Rio de Janeiro, a proposta encaminhada ao então Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira pressupunha a sua localização, como Escola Nacional de Florestas, na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, aos moldes da Escola Nacional de Agronomia e Escola Nacional de Veterinária lá já existentes.

O Presidente Juscelino aceitou implementar o projeto, porém condicionou sua implantação em Viçosa. De 1960 a março de 1964 a Escola Nacional de Florestas funcionou em Viçosa e os dois primeiros anos do curso, por ser integrado por disciplinas básicas, funcionou juntamente com o curso de Agronomia de lá. No início do terceiro ano, por meio de um acordo já firmado com as Nações Unidas, através da FAO, este supriu os professores para os aprendizados da área profissional. A maioria deles veio da Europa e, por esta razão, a implantação de nossa formação florestal no Brasil tem raízes preponderantemente europeias.

No ano passado, nós escrevemos uma coletânea de artigos que estão publicados em um número especial da Revista Floresta, sobre nossa contribuição para o desenvolvimento florestal do Brasil. Certamente que ali congregamos um importante acervo da pesquisa florestal realizada por nós, professores, estudantes de graduação e de pós-graduação, e, também, pelas empresas florestais do país.

Hoje já somos 2400 engenheiros florestais graduados na UFPR de 1964 a 2019 e mais 354 engenheiros industriais madeireiros. No âmbito da pós-graduação já graduamos 806 mestres e 494 doutores, uma massa crítica de profissionais que muito contribuiu para os importantes resultados conseguidos  pelo setor florestal brasileiro.

Os reflorestamentos de eucalipto no Brasil, aos quais foi incorporada uma fantástica tecnologia silvicultural, evoluiu de 20  ha-1ano-1 na década de 60 para 40 a 50 m³ ha-1ano-1 na atualidade. Nestes últimos 50 anos fomos capazes de produzir 117.628.103 m³ de madeira por ano, correspondente a 69,1% da produção nacional de madeira do país. Os reflorestamentos de pinus atingem hoje, em média, de 18 a 28 m³ ha-1ano-1, porém tem-se informação de alguns sítios que já atingiram 40 m³ ha-1ano-1.

A capacidade de produção sustentável das florestas brasileiras é estimada em cerca de 390 milhões de m³ anuais, dos quais, aproximadamente, 47,2 % (186,6 milhões de m³) são oriundos de plantações florestais comerciais de eucalipto e pinus.

A indústria florestal brasileira, mais expressiva com o uso de madeira de pinus, tem se desenvolvido com grande competência e acelerada diversificação da produção industrial, incluindo celulose, pasta de alto rendimento, painéis reconstituídos, madeira serrada e processada, compensado e remanufatura de madeira. Tudo isto se deveu à capacidade do setor privado para gerir os negócios florestais no país e para incorporar novas tecnologias.

Sintetizando, o setor florestal brasileiro ocupa uma área de 494 milhões de hectares no país, dos quais 98,4 % ( 485,9 milhões de ha) são de florestas nativas e 1,6 % (8,1 milhões de ha) são de florestas plantadas, 73 % de eucalipto (5,9 milhões de ha), 20 % de pinus (1,6 milhão de ha) e o restante 7 % são de plantios com outras espécies (590 mil ha), como araucária, erva mate, acácia negra, seringueira, teca, paricá, mogno australiano, pópulus e outras.

A produção total de madeira é de 259 milhões de  por ano, dos quais 223 milhões são  de plantações e 36 milhões de m³ são oriundos das florestas nativas.

O setor florestal brasileiro contribui com exportações de produtos que ultrapassam hoje  R$ 74 bilhões (setenta e quatro bilhões de reais), colocando o Brasil na 5ª posição no total das exportações brasileiras. Ainda, o país detém a 1ª posição nas exportações mundiais de celulose, a 2ª posição como produtor de celulose, a 5ª posição com exportador de madeira compensada e a 8ª posição como produtor de painéis reconstituídos.

As perspectivas evolutivas dessas conquistas dependerão de investimentos em pesquisa florestal, do aprimoramento tecnológico das indústrias florestais, da gestão mais eficaz do parque industrial madeireiro do país e, também, da qualidade de nossos profissionais atuantes neste setor.

Concluo afirmando, que não temos como medir isoladamente nossa contribuição individual, de cada uma de nossas instituições ou empresas, mas, com certeza, poderemos assegurar que nós todos, irmanados com o mesmo espírito de dedicação e de perseverança, conseguimos edificar esta realidade.

Solenidade de comemoração do Jubilei de Ouro da Turma de Engenharia Florestal do ano 1968, da UFPR. Na imagem à direita o Professor Sylvio, juntamente com outras grandes personalidades da profissão no país. Fotografia (Reprodução: UFPR – Fotógrafo Leonardo Bettinelli).  


Central Florestal Gostaríamos de voltar no tempo até meados do final dos anos 50 e início de 1960, quando ocorreram as discussões e instalação do curso de engenharia florestal e Escola Superior de Florestas na UREMG, em Viçosa, para saber o que fez-lhe ou convenceu-lhe a escolher como profissão a engenharia florestal? E como foram estes primeiros anos na sua formação profissional?

Dr. Péllico Netto – Minha entrada para a engenharia florestal em 1961 constituiu-se de um fato pitoresco. Eu tinha concluído meu curso técnico em horticultura na Escola Agrotécnica Diaulas Abreu, em Barbacena (Minas Gerais) em 1960 e, atendendo uma grande vontade de meus pais que eu estudasse agronomia, aliei-me a mais sete colegas com a mesma intensão e fomos para Viçosa para prestar o vestibular. Nós estávamos bem preparados e ao verificarmos os resultados do concurso, meus sete colegas foram todos aprovados com excelentes notas e eu também fui aprovado, porém não logrei classificação. Eu fui o primeiro excedente entre os demais aprovados, ou seja, fui o quinquagésimo primeiro na lista logo após os demais 50 classificados. Eu fui chamado à secretaria do curso de agronomia e informaram-me que eu deveria permanecer por mais alguns dias em Viçosa, porque poderia ocorrer desistências e eu seria chamado imediatamente para a matrícula. Logo após, fui chamado novamente e informaram-me que todos os aprovados haviam se matriculado, porém havia remanescido vagas para o curso de engenharia florestal e que eu poderia, se estivesse interessado, me matricular naquele curso. Eu me recolhi para pensar sobre aquela oportunidade, falei com meus pais e com minha madrinha Maria José em Belo Horizonte e, diante de tal encruzilhada, decidi objetivamente que valeria a pena ganhar um ano na minha vida acadêmica. Com o passar do tempo me convenci de que esta foi uma das mais importantes decisões de minha vida,  com inusitadas aberturas de portas para o meu sucesso profissional. Eu passei a ser um aficionado pela engenharia florestal. Eu cursei apenas três anos em Viçosa e os demais dois anos na Universidade Federal do Paraná em Curitiba, para onde fomos transferidos, mais uma vez por desígnio político, porém com auspiciosas condições técnicas, ambientais e sociais para nossa formação profissional.

*Encontro realizado antes da pandemia. Dependências do Departamento de Ciências Florestais UFPR (Fotografia: Central Florestal)

Central Florestal Professor, quando ocorreu a transferência do curso de Eng. Florestal da Escola Nacional de Florestas em Viçosa para a Universidade Federal do Paraná em Curitiba, qual foi a sua posição naquele momento? E por que escolheu ir para Curitiba?

Dr. Péllico Netto – A transferência da Escola Nacional de Florestas para Curitiba foi realmente um capítulo novo para nossa vida profissional, mais uma vez fruto de decisões políticas, devido a uma crise institucional e administrativa no âmbito da UREMG, em Viçosa. A engenharia florestal, apoiada pelo convênio internacional com a FAO, deveria se desenvolver com o atingimento de metas definidas pelo Governo Federal, porém vinha enfrentando adversidades nas decisões emanadas do Governo de Minas Gerais. Ainda, no ano de 1963, o Brasil passou por uma situação política conturbada, liderando à época, o governador de Minas Gerais José de Magalhães Pinto, a articulação política para a derrubada do governo do presidente João Goulart. Diante deste quadro de incertezas, os professores da FAO avaliaram as alternativas para a continuidade do convênio com o Brasil, porém em bases mais estáveis. Eles decidiram convidar o diretor da FAO, Dr. Nils Osara, ex-Ministro de Florestas da Finlândia,  para vir ao Brasil discutir o futuro do convênio. Ele esteve em Viçosa, analisou a realidade e solicitou uma audiência com o governador de Minas Gerais para discutir as inúmeras dificuldades administrativas detectadas, porém ele não o recebeu em Belo Horizonte. Nils Osara rumou para Brasília e conseguiu uma audiência imediata com o Presidente João Goulart, da qual saiu com uma decisão tomada, a transferência da Escola Nacional de Florestas de Viçosa para Curitiba. Nós estudantes do curso ficamos atônitos com esta notícia e nos movimentamos para avaliar como seria nossa mudança para Curitiba. Eu fui incluído, juntamente com o Professor Nelson Venturin e Otávio de Oliveira,  em uma comissão para participar de uma audiência com o Reitor Flávio Suplicy de Lacerda, principalmente para discutir com ele nossa situação de moradia. Em Viçosa nós tínhamos hospedagem gratuita e sabíamos que em Curitiba enfrentaríamos este problema. O Reitor nos recebeu muito bem e nos acalmou dizendo que ele nos ajudaria a acomodar nossos colegas em nossa chegada a Curitiba, provendo vagas na Casa do Estudante Universitário – CEU e na Hospedaria dos Imigrantes. Ele ainda fez questão de enfatizar que a Escola Nacional de Florestas tinha agora encontrado o seu lugar apropriado, porque era no Paraná que ela deveria estar desde o início. Expressou a nós votos de boas-vindas e nos acalmou dizendo que ele tudo faria para nos receber da melhor forma possível no Paraná. No início de março de 1964, nós estávamos iniciando nossas aulas no Centro Politécnico da UFPR, assimilando as inúmeras novidades para nossa formação acadêmica. Aos poucos começamos interagir com as florestas do Paraná, com os pinheirais, com a floresta Atlântica e com os plantios de araucária e de pinus já iniciados em Vila Velha e de eucaliptos na Klabin do Paraná. Nós interagimos com os madeireiros do Paraná e muito aprendemos com eles. A oportunidade de estagiar nas empresas  foi um ponto marcante para nossa formação profissional. Ao final do curso eu já tinha efetuado 5 estágios, os quais me permitiram realmente conquistar uma ótima visão de nossa profissão. Eu fui monitor do Professor Frederik van Dillewijn e participei intensamente com ele nos inventários florestais efetuados no Paraná e Santa Catarina, razão pela qual, após formado engenheiro florestal, decidi-me especializar neste campo da engenharia florestal. Logo após formado, deixando de lado várias oportunidades de emprego, decidi aceitar uma bolsa da FAO, oferecida pelo Professor Dillewijn, para efetuar meu mestrado na Universidade de Nova Iorque, no Campus da Universidade de Syracuse.  Sem ter  expressado minha opinião naquele momento que soubemos da transferência, após os anos vividos no Paraná, eu confirmo, sem margens de dúvida, que minha expectativa foi positiva e muitíssimo superada. 

Central Florestal O Brasil conta atualmente com 74 cursos de graduação em engenharia florestal distribuídos em 64 instituições de ensino superior, segundo dados divulgados pelo Sistema Nacional de Informações Florestais, do Serviço Florestal Brasileiro. O que o senhor acha desses números e da acelerada expansão na criação de novos cursos?

Dr. Péllico Netto – Eu e o Professor Sebastião do Amaral Machado temos acompanhado esta evolução e, conquanto nosso país seja de extensão continental, não considero que a qualidade de nossa profissão será medida pelo número de cursos existentes no país. Eu considero importante que os cursos amadureçam com estrutura laboratorial e experimental de primeiro mundo. Nossa profissão é fundamentalmente dependente da convivência com a floresta, da avaliação de experimentos silviculturais e de manejo, tanto das florestas nativas como dos povoamentos, do aprofundamento do processo transformativo e de uso industrial da madeira e, ainda, da organização do processo mercadológico e econômico da produção florestal. Mais recentemente, ficou evidente um maior envolvimento do engenheiro florestal com a conservação da natureza, pois a água tem origem na floresta, protege a fauna e torna o ambiente ao redor do homem mais agradável e salutar. Eu ainda defendo que cursos sejam criados para formar não apenas engenheiros florestais, mas também mestres e doutores. Todas estas conquistas requerem muitos investimentos, tanto em infraestrutura como em recursos humanos. Sintetizando, eu defendo mais qualidade e menos quantidade.   

Central Florestal O que o senhor acha que falta no perfil do atual estudante de graduação e pós-graduação nos cursos florestais do Brasil, diante das transformações sociais e mercadológicas que temos vivenciado?

 Dr. Péllico Netto – Falta uma visão mais abrangente para atuar nas amplas demandas envolvendo o negócio florestal como um todo. O engenheiro florestal precisa ser mais eclético e maleável para não permitir a grande participação de outros profissionais nas atividades que lhe são devidas. A ocupação destes espaços depende de habilidades e, principalmente, de competência. Os nossos profissionais devem postular a ocupação dos espaços na atividade florestal, mostrando ser detentor de mais conhecimento e de melhores soluções para os problemas florestais, e, também, grande capacidade para conquistar uma saudável interação social.

Professor Sylvio em Reserva Florestal de sua propriedade, no município de Cássia, Minas Gerais. Fotografia: Reprodução de G1- EPTV Sul de Minas

Central Florestal O senhor acha que a engenharia florestal precisa se reinventar?

Dr. Péllico Netto – Não, eu não acho que nossa formação profissional deve abandonar as raízes formativas convencionais, pelo contrário, eu acredito que apenas deveremos nos manter atualizados com as novas tecnologias e aprimoramentos disponibilizados pelas indústrias e empresas. Só para ilustrar um pouco desta visão, observem os avanços que estão acontecendo na silvicultura de precisão, no uso de computadores e de softwares multifuncionais para o processamento de dados experimentais e de inventários florestais, o uso da técnica de inteligência artificial para a quantificação de biomassa florestal e de outras variáveis quantitativas da produção florestal, o uso dos processos de otimização para redução de área e aumento de produtividade para produção florestal, o uso de inúmeros processos tecnológicos para a transformação da madeira em novos produtos de mercado e tantos outros. Sem dúvida, o conhecimento é um processo evolutivo contínuo, por isso deveremos ter um espaço para introduzi-los aos engenheiros florestais. Isto poderá ser ofertado nos programas de mestrado e doutorado, ou em cursos de Aperfeiçoamento ou de Especialização como fazem os médicos.

Central Florestal Professor, o que lhe motiva a manter-se atuante ativamente no ensino florestal e orientação científica de discentes? Mesmo após muitos anos da aposentadoria.

 Dr. Péllico Netto – Eu me sinto em plenas condições de saúde e não penso em me isolar e passar a viver no ostracismo. Como professor sênior no Programa de Pós-graduação em Engenharia Florestal da UFPR eu continuo orientando mestres e doutores e, consequentemente, escrevendo e publicando trabalhos científicos resultantes das pesquisas conduzidas pelos meus alunos. Eu estou também trabalhando na reedição do meu livro de Inventário Florestal e editando outros que estavam parados esperando oportunidade para finalização, um sobre experimentação em coautoria com os professores Alexandre Behling e Henrique Koehler, outro sobre distribuições probabilísticas em coautoria com Ana Paula Dalla Corte e Alexandre Behling, outro sobre sistemas de amostragem em coautoria com Doadi Antônio Brena e Alexandre Behling e, ainda, outro sobre estimadores biológicos racionais. Como se pode perceber, há muito chão pela frente para ser percorrido e conquistado. Espero que eu possa conseguir realizar este sonho com serenidade e perseverança.

Central Florestal Professor, nossa última pergunta. Qual recado ou mensagem, de alento e realidade, o senhor pode deixar para os jovens estudantes e aos profissionais do setor florestal brasileiro, sobretudo nestes tempos relativamente difíceis. Como poderemos resistir as barreiras e fortalecer ainda mais a engenharia florestal do Brasil?

Dr. Péllico Netto – Eu não me furtarei a apresentar algumas sugestões aos prezados jovens estudantes e profissionais já formados em engenharia florestal. Realmente estamos passando por momentos difíceis com esta pandemia, nos impedindo trabalhar e colocando as empresas florestais em ritmo letárgico. Após o retorno à normalidade haveremos de retomar ao processo de desenvolvimento e, oxalá, o setor produtivo nacional possa voltar a crescer.

- O setor florestal poderá crescer muito nos próximos anos, dependendo de como nós agirmos para que isto aconteça. A área reflorestada no Brasil poderá ser duplicada nos próximos 10 anos, ou seja, poderemos chegar a 20 milhões de ha, incluindo aí a expansão dos plantios de espécies nativas do Brasil. Nossa capacidade produtiva em plantios de eucalipto e pinus é excelente. Nós poderemos nos tornar o maior produtor de papel e celulose do mundo;

Os engenheiros florestais brasileiros deverão apoiar irrestritamente o fortalecimento do nosso Serviço Florestal, apoiando sua atuação como coordenador de todas as atividades inerentes às florestas brasileiras, com responsabilidade para gerenciar as unidades de conservação do país, a pesquisa florestal e, também, as atividades de extensão florestal. Aos moldes do Serviço Florestal dos Estados Unidos da América, a estrutura administrativa das florestas brasileiras deverá ser interiorizada em todos os Biomas brasileiros.

As pesquisas deverão ser fortemente ampliadas para assegurar a expansão de plantios de espécies nativas, incluindo-se aquelas de maior importância econômica para a produção de madeira e de produtos não madeireiros (sementes e castanhas, frutas, látex, óleos essenciais, corantes, entre outros). Como estas atividades são conduzidas primordialmente por pequenos produtores rurais, eles poderiam ser fomentados por meio de uma estrutura extensionista.

A água nasce na floresta. O Serviço Florestal Brasileiro deveria criar um Programa Nacional de Produção e Proteção da Água (PNPPA), visando criar condições melhores para o abastecimento de água às populações citadinas, que deverá ser implementado de forma integrada com os produtores rurais, para assegurar equilíbrio entre produção e consumo de água, ou seja, atingir um nível sustentável de  fornecimento de água às populações citadinas.

Apoiar e aprimorar as tecnologias para a geração de energia de biomassa florestal (etanol, termoeletricidade e outros).

Por fim, acredito que deveremos nos mobilizar melhor para que a representação de classe dos engenheiros florestais seja mais atuante em favor da consolidação de nossa profissão. Há um grande espaço a ser conquistado para a atuação dos engenheiros florestais. Nos fomos preparados não somente para plantar e manejar florestas, mas também para transformá-la e ampliar o número de  produtos gerados em favor da qualidade de vida do homem. Nós fomos preparados, também, para gerenciar os negócios florestais, assegurar lucratividade e qualidade dos produtos produzidos. Nossa visão de uso das florestas não se esgota nos produtos oriundas de madeira, existe também a sua função social, quando ela assegura a produção de água, protege os solos, dá abrigo à fauna,  ameniza o clima e enobrece a paisagem. Nós poderemos estar muito mais integrado nestes diversos contextos ecológicos das florestas.

Eu tenho consciência que não esgotei aqui todas as potencialidades existentes para nossa atuação profissional, porém eu tenho defendido que os engenheiros florestais deverão se preparar com mais profundidade e competência para se tornarem empreendedores. A sua atuação no setor público está se tornado limitada, restando-lhe o caminho para criar seu próprio ambiente de trabalho, ou seja, abrir seu próprio negócio, como o fazem outros engenheiros. 

Ainda que eu já me considere no ocaso de minha vida profissional, incentivo-os a manterem unidos e coesos na busca de novos rumos para nossa profissão. Eu tenho fé neste país e acredito que novos acontecimentos no desenvolvimento econômico e social  do Brasil vão, certamente, nos incluir neste processo.

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Parabéns a todos engenheiros e engenheiras florestais
nesta data de 12 de julho de 2020 (Central Florestal) 

3 Comentários

  1. Parabéns a todos que fazem dessa profissão tão importante. Muito boa s matéria. Parabéns pela matéria e abraços a todos do cebtral florestal

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  2. Excelente matéria. O professor Sylvio é uma lenda viva!

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  3. Ótima entrevista! Parabéns aos envolvidos e ao professor pelo exemplo de profissional.

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