ENTREVISTA
Por: Luciano C. J. França, 02 de agosto, 2020

Dr. McTague é reconhecido na comunidade científica como um dos mais importantes biometristas florestais do mundo no desenvolvimento de modelos aplicados ao manejo florestal 



tualmente, a Biometria Florestal é considerada uma disciplina bem definida e bastante estabelecida na Engenharia Florestal mundial. Em termos históricos, entretanto, esta concepção é relativamente recente. A Biometria Florestal surgiu com a aplicação dos conceitos e métodos estatísticos na Engenharia Florestal e na Mensuração Florestal, em particular, sendo que a expressão “Biometria Florestal” passou a ser de uso corrente somente na segunda metade do século XX. Um clássico florestal, Prodan em 1968 descreveu a biometria florestal como os métodos de estatística matemática e biométrica significativos para a silvicultura. Já a Mensuração Florestal é bastante antiga, datando do início da Engenharia Florestal como profissão no século XVIII. A Mensuração Florestal se desenvolveu simultaneamente ao surgimento da ciência florestal.

No mundo, importantes cientistas são reconhecidos por contribuições valiosas neste ramo de pesquisa da ciência florestal, dentre eles, o nosso entrevistado de hoje, o Engenheiro Florestal estadunidense Dr. John Paul McTague, reconhecido como um dos mais importantes biometristas da atualidade e, representante da indústria americana no que concerne ao desenvolvimento de modelos aplicados ao empreendimento florestal. 

Formado em Engenharia Florestal na Syracuse University em 1974, teve em sua formação, um semestre especial na Universidade Federal de Viçosa, no Brasil, em 1973. Mestre em Economia Florestal na Yale University (1976) e doutor na University of Georgia em Biometria Florestal (1985). Dr. Mctague foi gerente de pesquisa de crescimento e de produção da Rayonier, Inc entre 2007 - 2018, uma empresa de produtos florestais na Flórida. Foi também gerente do setor de biometria de pesquisas de recursos florestais na International Paper, Inc. (1998-2004).

Dr. McTague tem quase vinte anos de experiência na indústria de papel e celulose, sendo que cinco destes anos (1981-1985) foram passados na Olinkraft, Ltda em Santa Catarina, Brasil. Foi professor de biometria florestal na Northern Arizona University (1985-1997), em que foi promovido a professor titular pelo conselho da Escola de Florestas da referida instituição. Atuou como professor colaborador em diversas universidades e, ainda hoje, colabora na University of Georgia e North Carolina State University. Foi premiado com bolsas Fulbright em duas diferentes ocasiões, quando então foi docente da USP: professor e pesquisador sênior em 1989 e MS-6 em 1996. Em 2019, atuou como Professor Visitante Estrangeiro na Universidade Federal de Lavras, em Minas Gerais. Fez diversos trabalhos de consultoria (entre 1985-1997) e foi sócio em uma firma de investimentos florestais (2004-2007). Atualmente, o Dr. McTague é gerente de sua própria empresa de consultoria, a Southern Cross Biometrics, LLC, localizada em Fernandina Beach, na Flórida, EUA. 

Sua publicação, New and composite point sampling estimates na Canadian Journal of Forest Research, em 2010, foi considerado um método inovativo de amostragem florestal.

Nesta entrevista exclusiva concedida à Central Florestal, Dr. McTague conversou conosco sobre a gênese da sua escolha pela ciência florestal, sua relação com o Brasil e sobre os seus pensamentos e perspectivas sobre vários temas relacionados a engenharia, ensino e mercado florestal.

Central Florestal Em 2019 o senhor esteve no Brasil a atuar como professor visitante estrangeiro no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Florestal da Universidade Federal de Lavras, em Minas Gerais. Como foi para o senhor essa experiência no ensino acadêmico brasileiro?

John Paul McTague – Eu já tinha alguma experiência com ensino de pós-graduação no Brasil, pois eu fui um Professor Visitante Fulbright em 1989 e em 1997 na USP-ESALQ.  Foi interessante constatar como mudou o quadro de alunos de pós-graduação após duas décadas. Na área de biometria florestal, temos uma presença bem maior de alunas, ou seja, Engenheiras Florestais querendo se especializar em áreas quantitativas. O que está evidente também é que os grandes centros acadêmicos de pesquisa estão recrutando alunos de pós-graduação de todo Brasil.  Este tipo de integração nacional é louvável e representa uma força motriz nova para alavancar desenvolvimento regional e no setor florestal no Brasil.  A estrutura da UFLA está bem preparada para atender os requisitos de um programa ‘world class’ de biometria florestal. Os laboratórios informáticos são excelentes, e a instrução é boa. No entanto, eu acredito que os alunos de pós-graduação poderiam ser um pouco mais auto-suficientes e depender menos de ‘consenso de grupo’ na aprendizagem de conceitos altamente especializados. Para ler os artigos científicos, tantos de periódicos brasileiros quantos internacionais, e aplicar técnicas novas, os alunos de pós-graduação precisam ter um domínio razoável de inglês.  Este requerimento de inglês não é mais opcional.

Central Florestal – Como o senhor se interessou pela ciência florestal e escolheu para a vida ser um engenheiro florestal?

John Paul McTague A minha experiência não foi tão diferente de outros jovens de origem urbana.  Eu gostava imensamente das férias que a nossa família tirava na região de florestas e daquele tempo curto que passávamos nas cabanas rústicas.  Em outras palavras, foi uma noção romântica da vida de um Engenheiro Florestal, bem diferente do confinamento de um escritório. Gravitei eventualmente para um interesse focando em Economia Florestal, e ainda hoje consigo lembrar como eu lia de capa a capa, as publicações plurianuais de planejamento, economia, e desenvolvimento do Governo Brasileiro na década 70.  Na década 70, saiu a calculadora programável, e eu consegui finalmente ajustar minhas próprias equações de volume e hiposométricas!  Daí, nada me segurou, e eu queria aprender mais sobre distribuições diamétricas e modelos complexos de produção.  Em 1981, voltei para os Estados Unidos a fim de obter um Ph.D. em biometria florestal.

Central Florestal – Quais as principais diferenças no mercado/indústria florestal estadunidense em comparação a brasileira?

John Paul McTague Nos EUA, a construção de residências é feita quase exclusivamente com madeira. A madeira barateia o custo de construção, principalmente no que diz respeito à rapidez da construção.  Devido às propriedades térmicas, a madeira ajuda também diminuir os custos com ar condicionado e calefação central.  O uso de papel imprensa e papéis para imprimir está em forte declínio nos EUA, e não vejo como será possível reverter esta tendência.  Mesmo com menos ênfase em manejo de florestas para produtos múltiplos, acho que o sortimento de toras, tanto no pátio da fábrica ou na floresta pode ser melhorado sensivelmente nos EUA. Sortimento, baseado em informações de qualidade de madeira, principalmente nas propriedades de densidade básica e módulo de elasticidade, pode tornar a empresa mais eficiente e lucrativa.  Tomara que um dia o sortimento moderno que incorpora informações de qualidade de madeira seja uma prática comum com as grandes empresas florestais de todo o Brasil.

Central Florestal – O senhor tem grande relacionamento com o Brasil. Como as experiências com o país impactaram sua visão sobre a ciência florestal brasileira?

John Paul McTague – Quando iniciei a minha carreira em 1976 em Otacílio Costa, SC a minha visão estava focada em adquirir por uns anos experiência professional suficiente para mudar depois para um centro maior e para ter maiores oportunidades de subir na gerência da empresa.  Na realidade, eu saí ganhando bem mais do que experiência professional.  Vi, senti, e vibrei com o impacto que o nosso trabalho da empresa teve na comunidade e a melhoria da saúde, habitação, e educação do povo.  Eu senti que o meu trabalho fez uma diferença pequena, mas importante, no desenvolvimento rural do estado.  Hoje em dia, a situação não é tão diferente para o engenheiro florestal recém formado.  O setor florestal está cada vez mais presentes nos estados do oeste e do norte. Engenheiros florestais podem ter um impacto extremamente importante no manejo sustentável das florestais tropicais e semiáridas e no bem estar do povo da região.  Os desafios são grandes, mas acredito que o desejo dos engenheiros florestais recém formados de fazerem uma contribuição no desenvolvimento do país é maior ainda.

Central Florestal – Qual é o maior desafio do manejo e mensuração florestal contemporâneos, sobretudo para as próximas gerações?

John Paul McTague Já faz várias décadas que os provedores estão alegando que o inventário florestal pode ser executado com maior precisão e por um custo menor com as ferramentas de sensoriamento remoto.  Não resta dúvida que existe bem mais plataformas de sensores hoje em dia e que houve avanços imensos na interpretação de imagens, principalmente na estratificação, e no cálculo de área e de altitude.  O que falta ainda é uma integração entre interpretação de imagens e amostragem. Interpretação de imagens fornece informações ‘auxiliares’, e não informações ‘principais’.  Qualquer vendedor ou provedor de imagens que promete entregar um inventário florestal sem sequer instalar parcelas de inventário na floresta objeta, não têm domínio das técnicas de amostragem, está enganado, e cheio de promessas falsas. 

Central Florestal Professor, em nossa última pergunta, o senhor pode deixar uma mensagem de alento e engajamento para os jovens acadêmicos e aos profissionais do setor florestal brasileiro?

John Paul McTague Em 2020 confrontamos a realidade que existe 75 cursos de Engenharia Florestal no país.  Independentemente de qualquer medida que o MEC possa tomar no futuro, haverá uma tendência deste número de cursos diminuir, baseado na lei da oferta e da procura.  Os cursos que vão durar são aquelas instituições com programas de ensino e de pesquisas de alto gabarito. Os jovens pensando em cursar Engenharia Florestal deveriam então escolher o melhor curso acadêmico ao seu alcance.  Os alunos de pós-graduação deveriam escolher um curso após uma análise crítica do corpo docente usando Plataforma Lattes. Os departamentos de Recursos Humanos das empresas florestais podem e devem prestigiar os melhores cursos, dando preferência aos seus alunos.  Além do excesso de cursos de Engenharia Florestal no país, há um excesso de periódicos científicos de pesquisas florestais.  Com tantas revistas, não é surpreendente que a qualidade dos periódicos brasileiros é aquém das grandes revistas internacionais como Forest Ecology and Management, Forest Science, e Canadian Journal of Forest Research.  Não sei qual seria o melhor mecanismo para diminuir a quantidade de revistas e aumentar a qualidade dos artigos, mas acredito que várias universidades poderiam se juntar voluntariamente, e formar um consórcio. O consórcio seria independente das cooperativas de pesquisas e dos departamentos de ciências florestais, e focado apenas e publicar trabalhos com conteúdo e rigor que iguala aos níveis internacionais.

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