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AS MATRIZES DO ENSINO E FORMAÇÃO NA ENGENHARIA FLORESTAL DO BRASIL

 Portal Florestal apresenta uma série de reportagens sobre o Ensino Florestal no Brasil

  A Engenharia Florestal no mundo tem conotações diferenciadas no ensino e na formação acadêmica. Encontramos a Engenharia Florestal com raízes na História Natural, nas Ciências Agrárias, na formação tecnológica e na social, dependendo da tradição e cultura ou da necessidade em cada sociedade. Nos países de menores dimensões e de cultura e tradições homogêneas o ensino da Engenharia Florestal tem uma só raiz. Contudo em países com grandes extensões territoriais, com toda sorte de diversidades naturais como clima, solo, vegetação e diversidade sócio-cultural há que se aceitar a tendência de formação diversificada na profissão.
   A Engenharia Florestal no Brasil surgiu legalmente como uma profissão da área tecnológica, pois está classificada como um ramo da Engenharia, conforme a Lei 4643/65 e Decreto-Lei 8620/46. Todavia, administrativamente, na instalação dos primeiros cursos, seguindo a recomendação do Ministério de Educação e Cultura (MEC) eles foram instalados junto a cursos existentes de Agronomia. A justificativa para tal decisão foi técnica e política.
   Como técnica, a justificativa foi a de que nos primeiros anos do ensino da Engenharia Florestal, estes poderiam aproveitar melhor os laboratórios e os professores existentes, visto que as disciplinas básicas foram moldadas a exemplo da Agronomia. Entendia-se nesta oportunidade que a Engenharia Florestal era uma ampliação do estudo da silvicultura como teoricamente era propalada na Agronomia. Diga-se teoricamente, pois de fato, com exceção da ESALQ, da UFV (então UREMG) e da URGS (hoje UFRGS) o ensino da silvicultura tinha somente algumas referencias e poucas horas de dedicação dentro das disciplinas ligadas à Horticultura, como ficou amplamente relatado no Iº Congresso Florestal Brasileiro, em 1953. A tendência de vincular cursos de Engenharia Florestal aos de Agronomia perdura até hoje entre a maioria dos organizadores e proponentes de novos cursos a ser implantados.
   A justificativa política foi, justamente na proposta da criação do primeiro curso que este fosse instalado em Minas Gerais, mais precisamente em Viçosa, junto ao curso de Agronomia. Foi um acordo naquela ocasião entre os Ministros da Agricultura e da Educação e o Presidente da República, que era mineiro. Há que se mencionar que o relator técnico do projeto de criação da Engenharia Florestal, Prof. Arlindo de Paula Gonçalves também era mineiro e professor renomado de Silvicultura, em Viçosa.
  Para registro profissional, os Engenheiros Florestais e a atividade de base florestal foram vinculados ao Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agrimensura (CONFEA), por ser um ramo da engenharia, enquanto nesta ocasião os Agrônomos e as atividades de agronomia estavam subordinados ao Ministério da Agricultura. Aqueles Agrônomos que exerciam atividades de agrimensura e engenharia rural tinham igualmente registro no CONFEA. Durante certo período, antes da Lei 5.194, os Engenheiros Florestais enfrentavam grandes dificuldades de registro no CONFEA, pois era um ramo ignorado e estranho às engenharias tradicionais, ficando por conta da compreensão e desejos dos Agrônomos dentro do sistema CONFEA o futuro de exercício profissional dos Engenheiros Florestais. Estavam eles, naquele tempo, controlados e direcionados por "malditas madrastas", o que perdura até os dias atuais. De um lado os Engenheiros no sistema querem ignorar a Engenharia Florestal, rejeitando-a. De outro lado, os Agrônomos fazem o que querem, decidindo pelo futuro profissional dos Engenheiros Florestais, limitando suas atribuições e, ao mesmo tempo, ampliando ao infinito as atribuições dos agrônomos, mesmo sem embasamento acadêmico, nas atividades próprias da Engenharia Florestal. Perde o meio ambiente, as florestas e a sociedade com atitudes antiéticas desta natureza.
   Ao se analisar as grades curriculares e conteúdos programáticos dos cursos de Engenharia Florestal no Brasil observam-se influência de diversas raízes, predominando a da ciência agrária por razões já expostas. A maioria dos cursos está acoplada aos cursos de agronomia, mesmo que a raiz  legal seja de engenharia. Esta tendência permanecerá principalmente onde as florestas com intuito de produção estiverem em déficit.
   Considerando: a diversidade de ecossistemas de nosso País, seguramente o mais rico e diverso do planeta; a riqueza e variedade das bacias hidrográficas com características ímpares por estarem localizadas em diversas formações geológicas, sobre imensos aqüíferos, em diversas condições climáticas e regimes pluviométricos; as facilidades geomorfológicas, caracterizadas por imensas áreas mecanizáveis; a tendência do País se tornar um importante fornecedor de produtos de origem florestal, tanto de florestas nativas como de plantadas; a necessidade de se manejar, manter e preservar florestas e ecossistemas de maneira sustentável, disponíveis em mais de 60% do território nacional, tanto nos aspectos econômicos, sociais, do meios físico e biótico; a responsabilidade de conservar e disponibilizar água e ar de qualidade; as oportunidades comerciais internacionais; a necessidade de abastecer internamente a população com produtos de origem florestal com qualidade; as exigências ambientais dos núcleos urbanos, notadamente nas grandes metrópoles; a oportunidade  de resgatar áreas degradadas com cultivos florestais de produção, conservação, preservação, reserva ou de cunho social; o desenvolvimento de primorosas técnicas de produção de florestas de rápido crescimento; os avanços na genética e melhoramento florestal; direito de acessibilidade aos ensinamentos, benefícios da pesquisa e exercício vocacional da Engenharia Florestal, não resta dúvida  que devemos passar a considerar no Brasil uma maior diversidade de raízes (matrizes)  da formação do Engenheiro Florestal.
  Exemplo tem disponíveis pelo mundo afora, tais como na China, onde existe universidade especificamente florestal hospedando somente cursos de formação florestal. No Canadá existem diversas formações de âmbito florestal de nível superior na mesma universidade. Na África do Sul, a Engenharia Florestal é opcional em administração e economia de florestas de produção, em silvicultura e manejo de florestas, em política, manejo e administração de parques naturais e em industrialização de produtos florestais.
   A instalação de cursos de Engenharia Florestal no Brasil pode ocorrer em centro de raiz social. A ênfase é a economia, política, legislação florestal e ambiental, finanças, administração, empreendedorismo, gestão, planejamento, recursos humanos, organização social do terceiro setor, diversidade social tal como povos da floresta e culturas urbanas, permitindo assim aplicar os princípios da Engenharia Florestal com os de diversas ciências do ramo social. Os currículos e conteúdos programáticos devem contemplar além dos tradicionais florestais os aplicáveis para formar Engenheiros Florestais de cunho social, disponibilizando-se profissionais em áreas extremamente carentes de especialistas com sólida e adequada formação.
   O curso de Engenharia Florestal estabelecido em centros tecnológicos, como ocorre na UnB, deve preferencialmente oferecer sólida formação nos conhecimentos da ciência florestal com ênfase na matemática, cálculo, resistência dos materiais, desenho, física, química, estatística, mecânica, além de anatomia e tecnologia da madeira. Estes conhecimentos direcionados à área tecnológica devem ser aplicáveis nos povoamentos, nas indústrias, uso e manutenção de equipamentos para fins florestais e industriais e principalmente na disponibilização de produtos de origem florestal para a sociedade.
  Os profissionais de Engenharia Florestal disponibilizados à sociedade formados em cursos vinculados às ciências agrárias devem ter sólidos conhecimentos de silvicultura, proteção e manejo de florestas plantadas, suas condicionantes de água, solo, geomorfologia, genética, melhoramento, manejo e colheita de florestas de produção, mecânica, segurança do trabalho, extensão, sociologia rural, política fundiária, recuperação, conservação e manejo de áreas de preservação e reserva legal, comercialização de produtos florestais, empreendedorismo, planejamento operacional, engenharia rural e agrícola, avaliação de produção, patologia das plantas, nutrição e adubação,
  Nas grandes regiões de florestas e composições florísticas nativas é desejável ter disponíveis profissionais Engenheiros Florestais formados em centros de raiz biológica, história natural, geografia, engenharia ambiental, acumulando assim os princípios da Engenharia Florestal contudo visto pelo viés da diversidade biológica, ambiental e da ecologia. O manejo extrativista adequado implica em conhecimentos disponíveis na ciência florestal, ambiental e biológica garantindo-se assim a tão almejada sustentabilidade dos mais de 60% da superfície do território nacional.
   A Engenharia Florestal urbana, ainda desconhecida ou praticada por leigos e profissionais sem o menor conhecimento dos princípios que regem a condução de árvores no meio urbano e peri urbano e uso adequada da madeira para fins de construção civil, acabamentos, decoração e mobiliário, além de ter a fundamentação na ciência florestal, deve absorver conhecimentos usuais na arquitetura e nas artes urbanas. Esta interface de ciências pode trazer melhor e mais adequada harmonia entre o verde e os equipamentos urbanos, proporcionando melhor qualidade de vida nas grandes cidades e metrópoles.
   Portanto, a Engenharia Florestal, sendo um ramo legal da Engenharia em nosso País, deve e pode ser agregada a centros de ensino, pesquisa e extensão diversos, além da Engenharia e Tecnologia, à Social, Agrária, Biológica, Ambiental e Geografia, Arquitetura e Artes Urbanas. Havendo o zelo de formação básica da ciência florestal, não há que se preocupar no desvirtuamento da formação do Engenheiro Florestal, pois a matriz florestal é uma só prevista na base curricular e de conteúdos programáticos básicos. A contribuição das outras ciências é uma adequada adaptação do profissional ao seu meio de atuação e suprimento de especialistas. Isto permitirá ao Brasil, como um país de extensão continental, com todas as diversidades imagináveis nos campos da natureza, da sociedade e das oportunidades, ter Engenheiros Florestais adaptados às necessidades de cada meio existente.
  A sociedade, as florestas e o meio ambiente brasileiro ter disponíveis Engenheiros Florestais formados em centros de raízes social, tecnológica, agrária, biológica ou de arquitetura só serão enriquecidos e melhorando a qualidade de serviços e soluções, não se tirando a característica fundamental do Engenheiro Florestal brasileiro, o de ser um Engenheiro.

*Carlos Adolfo Bantel, 2009.

4 comentários:

  1. florestal aqui do Maranhão nem tá no mapa ;(

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  2. No Maranhão já tem o curso de Engenharia florestal!

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  3. Aos nossos caros colegas do curso de Engenharia Florestal do nosso querido Maranhão, este texto de Carlos Adolfo Bantel, bem elaborado e reivindicativo diga-se de passagem,é de 2009 e creio que neste ano ainda não havia o Curso de Engenharia Florestal no Maranhão.

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  4. Com relação ao Maranhão, adicionamos no mapa. ( O texto é de 2009, na época ainda não havia o curso, então não estava não estava no mapa a localização do MA)

    O curso de Engenharia Florestal do MA, está na UEMA, desde 2011.

    Já Adicionamos ao mapa do texto..

    Obrigado a todos pelo detalhe.


    Adm. Portal Florestal

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