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Ensino de engenharia florestal: é preciso mudar!


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A engenharia florestal brasileira é cinquentenária e já contamos com cursos tradicionais, que serviram de lastro para a constituição dos mais novos. Mas e o futuro? O que esperar dos próximos cinquenta anos? Os currículos atuais estão preparados para a revolução atual do conhecimento e para a velocidade com que ele se difunde? Já há estudos em andamento para preparar esse futuro? As ótimas estruturas de laboratórios e o volume de conhecimentos já acumulados na academia estão sendo usados no desenvolvimento de currículos capazes de levar tudo isso à formação de profissionais ligados no presente e antenados no futuro?

Tais perguntas me atormentam e eu resolvi, há pouco mais de um ano, escrever um artigo sobre o assunto e que foi publicado pelo Painel Florestal sob o título “Proposta para um novo ensino de engenharia florestal: quebrando paradigmas”. Confesso que fiquei um pouco decepcionado com o desinteresse que o assunto despertou nas comunidades acadêmicas e profissionais. Passei, então, a me fazer novas perguntas: a) Será que eu ando vendo fantasmas? b) Será que os engenheiros florestais formados em nossas universidades e faculdades estão saindo inteiramente aptos a enfrentarem as velocidades com os conhecimentos nos chegam a cada dia? c) Será que as empresas e instituições contratantes estão plenamente satisfeitas com os perfis dos profissionais recém-formados que lhes são oferecidos? d) Será que há uma acomodação com o status quo, contentando todos com algumas manifestações de descontentamento, ditas aqui e ali, e interpretadas como simples choro para marcar posições? e) Será, ainda, que as agruras acadêmicas e os atropelos diários nas empresas não dão oportunidades a que tempos sejam gastos “no pensar a profissão”?

Depois de tudo isso, resolvi repetir o assunto em novo artigo. Há trechos iguais e observações e comentários novos. É uma ousadia de minha parte? Talvez, mas a velhice ainda não me privou da inquietude, e, de antemão, peço desculpas se a minha insistência incomoda, ou não tem sentido algum.

Comentei, no primeiro artigo, que os currículos simples, do começo, foram sendo incrementados ao longo do tempo, como resultado proveniente basicamente de duas ações: primeiro, pelo desenvolvimento da ciência e da técnica florestais no país, que foram criando novas necessidades de estudos curriculares e sugerindo novas disciplinas ou divisão das já existentes; e, segundo, pelo desejo de professores, cada vez mais preparados, de terem seus próprios nichos, ou seja, suas próprias disciplinas. Já de há muito, quando ainda participava da feitura de currículos, sentia a pressão de professores para a ampliação de suas áreas dentro da grade curricular. Aí a coisa foi crescendo e muitos cursos já estão com mais de quatro mil horas, o que foge à lógica do acesso moderno e fácil às informações. Há muita superposição de assuntos e a carga horária é incompatível com a paciência do aluno atual, que vive num mundo interconectado. Melhor ensiná-los a buscarem as informações corretamente do que passá-las no quadro ou no projetor.

Não é uma implicância só minha, pois a carga horária excessiva já permeia a preocupação de profissionais como o Prof. Glaucius Oliva, da USP de São Carlos-SP, atual presidente do CNPq. Em entrevista recente e falando do que espera dos alunos que hoje estão no programa Ciências sem Fronteiras, quando voltarem ao país, ele disse: “Tenho a esperança de que eles deem uma chacoalhada nas universidades brasileiras. A começar pela graduação, ainda apoiada em modelo velho, fossilizado. Nem mesmo instituições mais conceituadas como a USP, ficam de fora. Impomos aos alunos uma carga horária absurdamente elevada, baseada em um excesso de aulas expositivas maçantes. Basta olhar um pouco além de nossos próprios muros para perceber que a nata da academia mundial está caminhando justamente em direção oposta. Eles envolvem os alunos em projetos desafiantes, em leituras e discussões de altíssimo nível, no lugar de deixá-los presos a uma sala de aula congelada no século XIX”. E aí eu pergunto: Primeiro, será que precisamos esperar por isso? Segundo, os que estamos aqui hoje somos incompetentes para mudar, ou estamos acomodados?

O que vou expor a seguir já estava essencialmente no primeiro artigo e é um pouco da minha visão de lógica curricular para os dias atuais. É, também, uma provocação quanto ao futuro, numa tentativa de quebrar os paradigmas que estão sustentando os currículos oferecidos por nossas escolas e universidades. Vou enumerar a discussão, para facilitar a leitura e a compreensão das ideias.

1) Semelhante ao que já está vigorando hoje (pela obrigatoriedade legal de mínimo de horas totais), o curso continuaria a ser dividido em 10 períodos semestrais e em dois blocos bem distintos. Os cinco primeiros para uma forte base científica, um pouco como é atualmente, incluindo disciplinas de exatas, biológicas e humanas, num total máximo 1.800 horas. Depois desses períodos, o aluno seria um pouco bacharel em ciências. Deveriam ficar aí, também, as disciplinas de computação, estatística, topografia e geoprocessamento, representação gráfica, mecânica e mecanização rural e fitopatologia. Haverá certamente sobre essa proposta a crítica de que os alunos ficarão desmotivados e enjoados de estarem estudando quase que só os prolongamentos das disciplinas do ensino médio. Mas se olharmos a grade curricular de Viçosa, por exemplo, vamos ver que os primeiros quatro períodos já estão bem concentrados em disciplinas básicas. E a minha proposta é que todo o currículo seja “sacudido” e, assim, a parte básica deverá achar os caminhos necessários à motivação. Há, também, a possibilidade de se criar disciplinas de seminário em todos os períodos, para discutir assuntos da profissão, promover a interligação das disciplinas entre si e mostrar os seus futuros aproveitamentos na parte profissional;

2) Os cinco últimos períodos seriam divididos em Módulos, um por semestre, tratando dos grandes campos da engenharia florestal, assim constituídos:
Sexto Período – Módulo de Estudos de Aspectos Ambientais, incluindo ecologia e ecossistemas florestais, meteorologia e climatologia, gênese, morfologia e classificação de solos, química e fertilidade de solos, geoprocessamento aplicado, dendrologia e dendrometria.
Sétimo Período – Módulo de Silvicultura, incluindo sementes, propagação de espécies florestais, práticas silviculturais, nutrição florestal, melhoramento, defesa florestal e agrossilvicultura.
Oitavo Período – Módulo de Tecnologia, incluindo colheita e transporte de madeira, estrutura anatômica, identificação, propriedades físicas, mecânicas e químicas da madeira, produtos florestais, processamento e construções de madeira.
Nono Período - Módulo de Conservação, incluindo hidrologia e manejo de pequenas bacias hidrográficas, unidades de conservação florestal e da biodiversidade, arborização e paisagismo, incêndios florestais e estudos e avaliações de impactos ambientais.
Décimo Período – Administração Florestal, incluindo mensuração florestal, economia aplicada, técnicas de administração, política e legislação florestal, empresarial e trabalhista, manejo florestal, técnicas de comunicação e divulgação, técnicas de preparo de artigos, boletins e monografias.

À primeira vista, parece não haver nenhuma novidade, pois todos os currículos dos atuais cursos de engenharia florestal, de uma maneira ou de outra, acabam contemplando o conteúdo apresentado. Mas a novidade está na operacionalização, pois a ideia é que os conteúdos não sejam divididos em disciplinas estanques. O aluno se matricula no Módulo e os assuntos (conteúdos) vão sendo oferecidos pelo grupo de professores responsáveis pelo mesmo. Haverá uma utilização melhor do tempo, uma adequação permanente aos avanços do conhecimento e o aluno verá, com muito mais facilidade, que os assuntos, em Silvicultura, por exemplo, estão perfeitamente relacionados; por isso, devem ser tratados como uma unidade fundamental da ciência e da tecnologia de implantação florestal e dos cuidados que a floresta necessita para a produção de bens e serviços.

A adoção dos Módulos é perfeitamente viável dentro das diretrizes curriculares para o curso de engenharia florestal, estabelecidas pelo Conselho Nacional de Educação. Tais diretrizes falam em núcleos de conteúdos, que poderão ser ministrados em diversas formas de organização. Não há menção, portanto, à organização em forma de disciplinas ou matérias.

3) Todos os Módulos terão carga horária total de 360 horas, incluindo teoria e prática. Serão 300 horas de ensino propriamente dito e 60 horas de Oficinas. Exemplificando uma possível organização: 4 horas de aulas em um turno, de segunda a sexta (20 horas), onde os assuntos serão tratados, e mais um período em outro turno, de 4 horas, para trabalhos em grupos de no máximo 25 alunos cada. Esta Oficina será para os alunos se acostumarem ao estudo em grupos, apresentarem trabalhos individuais ou coletivos, trazerem assuntos para discussão, aprenderem técnicas de produção e apresentação de trabalhos e de uso de equipamentos, fazerem visitas, interagirem com profissionais convidados, assistirem palestras etc. Serão verdadeiros fóruns de debates semanais, possibilitando que os alunos estejam sempre antenados com o que acontece fora da academia. É tarefa de difícil execução? Claro que é, mas nem o mais simples dos almoços tem custo zero. A maior dificuldade reside na quebra cultural do ensino fragmentado, que domina os currículos atuais.

4) Cada Módulo será operacionalizado por um grupo de professores que dividirão o ensino dos assuntos, comandarão as Oficinas e farão avaliação dos alunos. Tal avaliação incluirá o acompanhamento ao longo do período, a indicação dos reforços necessários para uma recuperação aqui ou ali e a avaliação final. A ideia é que, com o acompanhamento contínuo e os assuntos tratados em conjunto e não divididos em disciplinas estanques, as reprovações poderão ser muito reduzidas e só em casos muito especiais alguns alunos precisarão repetir todo o Módulo em outro período. Além do mais, os cinco períodos iniciais do curso funcionarão como um filtro e os alunos que passarem por eles estarão com base científica suficiente para não terem dificuldades maiores nos Módulos profissionais.

5) Uma outra vantagem do sistema proposto é que os professores responsáveis pelo Módulo terão que trabalhar em equipe, sendo um bom exemplo para que os alunos também se acostumem a fazê-lo. Fica difícil o aluno sair da escola com este comportamento, muito cobrado pelo mercado de trabalho, quando convive com professores que agem exatamente ao contrário, cada um querendo o seu cantinho ou o seu feudo particular, origem principal da fragmentação dos assuntos em inúmeras disciplinas, como já foi comentado.

Sei que a proposta é ousada, mexe com costumes arraigados e contraria o fato comum, principalmente nas universidades federais, muito presas às normas e aos interesses corporativos de grupos que resistem a quaisquer mudanças que possam alterar o seu cotidiano. Também os critérios de promoção e de valorização do professor estão muito centrados na pesquisa e na carga horária, com cada um tendo que defender o seu quinhão com unhas e dentes, para não ser salarialmente punido.

É claro, também, que a proposta tenta apenas abrir a discussão com respeito ao ensino da engenharia florestal, adaptado aos tempos atuais e com olho no futuro. Posso estar errado, na visão de leitores, e então vamos corrigir, apontar novos caminhos; posso ser considerado utópico, também não vou ficar chateado; podem dizer que eu estou muito pessimista e que os currículos atuais estão ótimos e eu vou guardar minhas colocações, mesmo continuando desconfiado. Mas a discussão é melhor do que o silêncio e a crítica é consequência lógica do debate. Einstein já dizia que quem nunca errou, nunca tentou. E ainda parodiando outro ilustre pensador e educador, Anísio Teixeira, quero dizer que não tenho nenhum amor físico por minhas idéias e estou pronto a mudar, desde que me convençam com bons e sólidos argumentos.
  • Osvaldo Ferreira Valente é engenheiro florestal e professor titular, aposentado, da Universidade Federal de Viçosa (valente.osvaldo@gmail.com)

Um comentário:

  1. Parabéns Prof. Osvaldo Ferreira pelo artigo. Nosso ensino está muito ultrapassado, e creio, me permita dizer, não só o universitário, mas todo o sistema. É preciso muito que mais que uma sacudidela, é preciso afastá-lo de vez de nossas escolas e universidades e reconstruir novo sistema com novos paradigmas, e aí quem sabe a carruagem se transforma e começa a andar de acordo com esse novo tempo em que vivemos. Quem viver verá.

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